segunda-feira, 11 de junho de 2018

Trevas

A criatura sinistra em que se transforma o vocalista Attila Csihar, durante o show do MayhemA criatura sinistra em que se transforma o vocalista Attila Csihar, durante o show do Mayhem

Em atmosfera sombria e atemporal, Mayhem repete a dose ao executar a íntegra de álbum seminal para o black metal no Rio. Fotos: Daniel Croce.


O procedimento de tocar discos na íntegra para reviver momentos de bandas clássicas nunca fez tanto sentido quanto na enfumaçada noite desta sexta (8/6), no Teatro Odisséia, no Rio. Porque poucos álbuns são tão representativos para um subgênero do rock quanto o que está sendo executado, de cabo a rabo, com ares de obra-prima mais bem acabada, interpretada, teatral, cinematográfica até. Uma segunda oportunidade – o show passou por este mesmo local há menos de dois anos, relembre – para que fãs de black metal da real capital de um país tropical saiam de suas catacumbas para viver e entender o que é e como foi criado o black metal norueguês. É o Mayhem, em carne, osso e todo paramentado, tocando a íntegra de “De Mysteriis Dom Sathanas”. Bem-vindos - e de novo - às trevas.

O disco, um dos trabalhos mais influentes do black metal em todos os tempos – repita-se - resume toda a fase inicial do grupo norueguês, porque, lançado em 1994, traz músicas que começaram a ser compostas desde ao menos 1987, e atravessa todo o período mais controverso do gênero, incluindo suicídios, assassinatos, queima de igrejas e outras manifestações do Mal transubstanciadas em forma de música; ou seja, a essência do black metal. A oportunidade é ainda mais especial porque o grupo tem na atual formação duas das verdadeiras lendas vivas do black metal planetário: o vocalista Attila Csihar e o baterista Hellhammer, que gravaram o seminal álbum reverenciado esta noite. É ou não é um momento para se anotar no caderninho?

O que faz toda a diferença. Primeiro, pelo carisma e pela forma interpretativa com a qual o húngaro Csihar conduz toda a exibição, sob mantos ancestrais, com a expressão cadavérica proporcionada por um indelével corpse paint que realça sua avantajada compleição física. Durante a noite, ele se relaciona com crânios e/ou monstrengos macabros que surgem como fantoches de dentro de sua manga esquerda, como em “Life Eternal”, por exemplo. Sob névoa e luz caótica, tudo parece real e absolutamente dos infernos. Depois, ressalte-se a forma peculiar como Hellhammer conduz a bateria, em uma velocidade descomunal que faz toda a diferença para o tipo de som que o Mayhem produz. A partir dessa batida alucinada é que os dois guitarristas e o baixista Necrobutcher, integrante fundador, têm que correr atrás, e o resultado beira o inacreditável.

Vista do palco com o Mayhem pregando o espetáculo com a íntegra do álbum 'De Mysteriis Dom Sathanas'

Vista do palco com o Mayhem pregando o espetáculo com a íntegra do álbum 'De Mysteriis Dom Sathanas'

Como em “Cursed Into Eternity”, uma paulada abissal minimalista, com um som reto, cru e, ao mesmo tempo, dilacerante. A música é antecedida por uma atmosfera sinistra, com chuvas e trovoadas que ambientam quase todas as passagens de faixa a outra do álbum – oito, no total –, somando quase uma hora de pura alucinação e, também, perplexidade. Em “Pagan Fears”, com um início tribal, a banda impinge mudanças de andamento – em outras peças também – que resultam em espécie de progressivo do Mal. É como se a técnica apurada dos músicos mirasse um refinamento tal que completasse a volta até encontrar o básico, o primitivo, o cru. Ainda que na outra vez o som do Odisséia não tenha decepcionado, desta feita há uma mesa e som extra apenas para o Mayhem. E reforça-se que, na seara do black metal, se o som não for bom, vai tudo por água abaixo.

Como em um vácuo do tempo, o show, esteticamente falando, tem impacto maior quando se encerra em si mesmo. De modo que, ao término de “De Mysteriis Dom Sathanas”, a música, todos poderiam ser tele transportados imediatamente de volta para as suas casas. Mas tem um bis de cara quase limpa, e dessa vez vitaminado com cinco faixas de fases menos influentes do Mayhem. Vale pela presença de “Deathcrush”, que o público adora, e para mostrar coisas mais recentes, como “MLAB”, do álbum “Esoteric Warfare”, de 2014, gravado por essa formação. Ao mesmo tempo, por conta de uma tonalidade quase hardcore, o bloco do bis faz o público se debater sem parar, sem a perplexidade da primeira parte, como em uma espécie de transição para que a volta à realidade não seja tão dura. Mas que ninguém vai esquecer dessa noite de metal extremo, não vai mesmo.

“Vai ser rapidinho, mas vai ser legal”. A frase, dita pelo baixista e vocalista do Enterro, Kaffer, resume bem o que aconteceu com as bandas que tocaram antes. Registra-se que o evento, que mudou de lugar e horário várias vezes, quase foi cancelado por motivos de crise e acabou acontecendo na raça, de última hora, no Odisséia. Assim, cada uma das três bandas tocou por cerca de miúdos 15, 20 minutos. O Enterro se destaca pelas boas tramas instrumentais no black metal e consolida a formação de quarteto com Kaffer nos vocais e ordens para o público agitar que fazem efeito. As melhores músicas da noite são “Excommunicated”, com ênfase na transição entre trechos mais rápidos e mais cadenciados, e “This Land Shall Burn”, verdadeira locomotiva extrema com um “que” de cativante que faz o púbico erguer os punhos no final.

Trevas: a atmosfera pesada criada pelo grupo para a execução de uma obra-prima do black metal
Trevas: a atmosfera pesada criada pelo grupo para a execução de uma obra-prima do black metal


Antes, o encapuzado 7 Peles, cheio de mistério, mandou quatro pedradas. A banda, que toca oculta por capuzes e tem cada integrante com o mesmo nome – 7 Peles mesmo - no maior estilo Ghost, tem a identidade dos integrantes escondida a sete chaves. Foram três músicas próprias, com destaque para “Cayin” e seus solos próximos do melódico. A grande atração, contudo, foi a participação de Attila Csihar, ele mesmo, o frontman do Mayhem, de cara limpa, em um cover para “Beyond”, do Tormentor, sua banda de origem. Pena que boa parte do público não percebeu. Mais cedo, o bom Svatan de Curitiba, que usa toda a indumentária black metal e corpse paint, abriu os trabalhos para um público bem reduzido, que ainda se desvencilhava na entrada do Odisséia. Precisam votar ao Rio em melhores condições.

Set list completo Mayhem:
1- Funeral Fog
2- Freezing Moon
3- Cursed in Eternity
4- Pagan Fears
5- Life Eternal
6- From the Dark Past
7- Buried by Time and Dust
8- De Mysteriis Dom Sathanas
Bis
9- Deathcrush
10- MILAB
11- To Daimonion
12- Carnage
13- Pure Fucking Armageddon

O momento do show em que Attila Csihar se relaciona com o crânio macabro oriundo dele próprio
O momento do show em que Attila Csihar se relaciona com o crânio macabro oriundo dele próprio

Nota: Os integrantes do 7 Peles pediram que suas identidades permanecessem desconhecidas e por isso o texto original foi modificado para esta versão, em 10/6/18.


Fonte: Rock em Geral
 

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