segunda-feira, 11 de junho de 2018

Exposição “Do Toque ao Clique” conta história da música em São Paulo

 

Que tal embarcar em uma viagem histórica e sensorial, passando por autômatos, caixas de músicas, gramofones, jukebox, pianolas, realejos, vitrolas e muito mais?

Com curadoria de Leão Leibovich, “Do Toque Ao Clique – A História Da Música Automática”, em cartaz no Sesc Vila Mariana até 29 de julho, é inédita no Brasil e reúne um acervo rico de peças sonoras históricas, além de mídias musicais e aparelhos eletrônicos. Os objetos, construídos em sua maioria ao longo dos séculos XIX e XX, permitem traçar um panorama histórico e social da música mecânica programada e automática ao redor do mundo.

Inaugurada em abril, mostra conta com cerca de 100 peças e já recebeu mais de 10 mil visitantes

A música automática evoluiu do toque ao clique, passando por diversos tipos de máquinas e mídias, metamorfoseando tecnologias, recriando e revolucionando os hábitos sociais. Para mostrar ao público essa evolução da música programada, o Sesc Vila Mariana apresenta a exposição “Do Toque Ao Clique – A História Da Música Automática”, que conta cronologicamente as principais etapas que constituem esta revolução tecnológica e seu papel dentro da história da humanidade. A mostra é gratuita e aberta ao público em geral.

A exposição reúne um acervo de peças centenárias – provenientes da Europa e Estados Unidos – composto por caixas de música, autômatos, realejos, fonógrafos, gramofones, vitrolas, jukebox e muitos outros itens que datam de 1820 até os tempos atuais, totalizando cerca de 100 peças.

Uma cenografia e uma ambientação especial também foram criadas para receber a mostra, além de uma paisagem sonora com sons ambientes. Algumas peças da exposição (11 no total), possuem vídeos em que o público pode ver o funcionamento das obras, além de escutá-las.

CAIXAS DE MÚSICA

Leão Leibovich explica que hoje só conseguimos escutar música no celular graças aos antigos realejos de rua: “Durante toda a história até o começo do século 19, para se ouvir música dentro de casa, era preciso ter um cantor ou um músico na família. Caso contrário, só mesmo contratando um artista. Apreciar música era um privilégio para poucos afortunados que podiam ir a teatros ou diversão pontual para muitos que não se importavam em ficar em praças públicas, no calor ou no frio, dançando ao som dos realejos de rua.”

“Nas vésperas da Revolução Industrial, os relojoeiros suíços e alemães iniciaram um processo importantíssimo e irreversível para o futuro da música em todo o mundo. A alegria começou a entrar na casa das pessoas através de pequenas máquinas movidas à corda. Eram as caixas de música. Assim como os realejos, elas reproduziam, por intermédio de um sistema de cilindro programado, os hits da época repletos de árias, polcas e valsas. Por quase cem anos o mundo acompanhou a evolução de dezenas de máquinas e mídias cada vez mais sofisticadas e para todos os gostos e bolsos. Mas somente a partir da invenção do fonógrafo de Edison foi possível gravar e reproduzir o som como ele é. Inclusive a voz humana”, conta o curador.

O TOQUE

O conceito de música programada só surgiu porque nossos ancestrais sonharam com instrumentos capazes de executar uma música inteira com um simples toque, como o girar de uma manivela ou o acionar de uma alavanca.

Máquinas maravilhosas que tocassem sozinhas, sem a necessidade de um músico ou instrumentista, foram idealizadas desde povos muito antigos. Para os inventores, a automação significava não apenas entretenimento, mas uma comodidade na execução de tarefas pré-programadas a um simples comando. Para as pessoas comuns o resultado era surpreendente. Como um toque de mágica a música se transformou na primeira das sete artes.

O CLIQUE
O século 20 trouxe tanto melhorias para antigas necessidades como novas tecnologias para atender a diversas demandas. Os eletrônicos, as gravações elétricas, o aperfeiçoamento do magnetismo e, principalmente, a corrida pela portabilidade. O rádio e a TV inauguraram a Era da Informação e só haveria espaço no mercado para equipamentos simples e práticos. As pessoas não queriam mais ficar girando uma manivela para obter um som, nota por nota. Queriam aparelhos eletrônicos que trocassem as mídias automaticamente e funcionassem com apenas um clique.

Com o futuro em voga, a informática e a nanotecnologia também ganhavam seu espaço e milhares de possibilidades estavam a um clique do mouse. A internet acelerou o processo da informação e a música programada não podia ficar de fora. Os aparelhos ficaram mais compactos até caberem num pequeno bolso. As mídias diminuíram de tamanho até sumirem completamente do plano físico. Atualmente, a música é compartilhada através de sistemas sem fio como o wi-fi e o bluetooth.

A música automática evoluiu do toque ao clique passando por diversos tipos de máquinas e mídias, metamorfoseando tecnologias, recriando e revolucionando os hábitos sociais. “Hoje em dia as plataformas digitais acabaram com a necessidade de um aparelho específico para se ouvir música. Smartphones e players para todos os bolsos e gostos são capazes disso e muito mais. Não precisamos mais procurar a música, a música nos encontra onde quer que estejamos”, acredita Leão.


DO TOQUE AO CLIQUE - A HISTÓRIA DA MÚSICA AUTOMÁTICA

Em cartaz até 29 de julho de 2018, terças a sextas-feiras, das 10h às 21h30; sábados, das 10h às 20h30; domingos e feriados, das 10h às 18h30. Atrium – 1º andar – Torre A e Espaço da Palavra – 5º andar – Torre A do Sesc Vila Mariana. Livre. Grátis.

Estacionamento: R$ 5,50 a primeira hora + R$ 2,00 a hora adicional (Credencial Plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). R$ 12 a primeira hora + R$ 3,00 a hora adicional (outros). 200 vagas.

SESC VILA MARIANA – Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana. Telefone – (11) 5080-3000. Acesso para deficientes físicos. Horário de funcionamento da Unidade – Terça a sexta, das 7h às 21h30; sábado, das 9h às 21h; e domingo e feriado, das 9h às 18h30. Central de Atendimento (Piso Superior – Torre A) – Terça a sexta-feira, das 9h às 20h30; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h30. www.sescsp.org.br.



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Fonte: Assessoria de Imprensa Sesc Vila Mariana


Trevas

A criatura sinistra em que se transforma o vocalista Attila Csihar, durante o show do MayhemA criatura sinistra em que se transforma o vocalista Attila Csihar, durante o show do Mayhem

Em atmosfera sombria e atemporal, Mayhem repete a dose ao executar a íntegra de álbum seminal para o black metal no Rio. Fotos: Daniel Croce.


O procedimento de tocar discos na íntegra para reviver momentos de bandas clássicas nunca fez tanto sentido quanto na enfumaçada noite desta sexta (8/6), no Teatro Odisséia, no Rio. Porque poucos álbuns são tão representativos para um subgênero do rock quanto o que está sendo executado, de cabo a rabo, com ares de obra-prima mais bem acabada, interpretada, teatral, cinematográfica até. Uma segunda oportunidade – o show passou por este mesmo local há menos de dois anos, relembre – para que fãs de black metal da real capital de um país tropical saiam de suas catacumbas para viver e entender o que é e como foi criado o black metal norueguês. É o Mayhem, em carne, osso e todo paramentado, tocando a íntegra de “De Mysteriis Dom Sathanas”. Bem-vindos - e de novo - às trevas.

O disco, um dos trabalhos mais influentes do black metal em todos os tempos – repita-se - resume toda a fase inicial do grupo norueguês, porque, lançado em 1994, traz músicas que começaram a ser compostas desde ao menos 1987, e atravessa todo o período mais controverso do gênero, incluindo suicídios, assassinatos, queima de igrejas e outras manifestações do Mal transubstanciadas em forma de música; ou seja, a essência do black metal. A oportunidade é ainda mais especial porque o grupo tem na atual formação duas das verdadeiras lendas vivas do black metal planetário: o vocalista Attila Csihar e o baterista Hellhammer, que gravaram o seminal álbum reverenciado esta noite. É ou não é um momento para se anotar no caderninho?

O que faz toda a diferença. Primeiro, pelo carisma e pela forma interpretativa com a qual o húngaro Csihar conduz toda a exibição, sob mantos ancestrais, com a expressão cadavérica proporcionada por um indelével corpse paint que realça sua avantajada compleição física. Durante a noite, ele se relaciona com crânios e/ou monstrengos macabros que surgem como fantoches de dentro de sua manga esquerda, como em “Life Eternal”, por exemplo. Sob névoa e luz caótica, tudo parece real e absolutamente dos infernos. Depois, ressalte-se a forma peculiar como Hellhammer conduz a bateria, em uma velocidade descomunal que faz toda a diferença para o tipo de som que o Mayhem produz. A partir dessa batida alucinada é que os dois guitarristas e o baixista Necrobutcher, integrante fundador, têm que correr atrás, e o resultado beira o inacreditável.

Vista do palco com o Mayhem pregando o espetáculo com a íntegra do álbum 'De Mysteriis Dom Sathanas'

Vista do palco com o Mayhem pregando o espetáculo com a íntegra do álbum 'De Mysteriis Dom Sathanas'

Como em “Cursed Into Eternity”, uma paulada abissal minimalista, com um som reto, cru e, ao mesmo tempo, dilacerante. A música é antecedida por uma atmosfera sinistra, com chuvas e trovoadas que ambientam quase todas as passagens de faixa a outra do álbum – oito, no total –, somando quase uma hora de pura alucinação e, também, perplexidade. Em “Pagan Fears”, com um início tribal, a banda impinge mudanças de andamento – em outras peças também – que resultam em espécie de progressivo do Mal. É como se a técnica apurada dos músicos mirasse um refinamento tal que completasse a volta até encontrar o básico, o primitivo, o cru. Ainda que na outra vez o som do Odisséia não tenha decepcionado, desta feita há uma mesa e som extra apenas para o Mayhem. E reforça-se que, na seara do black metal, se o som não for bom, vai tudo por água abaixo.

Como em um vácuo do tempo, o show, esteticamente falando, tem impacto maior quando se encerra em si mesmo. De modo que, ao término de “De Mysteriis Dom Sathanas”, a música, todos poderiam ser tele transportados imediatamente de volta para as suas casas. Mas tem um bis de cara quase limpa, e dessa vez vitaminado com cinco faixas de fases menos influentes do Mayhem. Vale pela presença de “Deathcrush”, que o público adora, e para mostrar coisas mais recentes, como “MLAB”, do álbum “Esoteric Warfare”, de 2014, gravado por essa formação. Ao mesmo tempo, por conta de uma tonalidade quase hardcore, o bloco do bis faz o público se debater sem parar, sem a perplexidade da primeira parte, como em uma espécie de transição para que a volta à realidade não seja tão dura. Mas que ninguém vai esquecer dessa noite de metal extremo, não vai mesmo.

“Vai ser rapidinho, mas vai ser legal”. A frase, dita pelo baixista e vocalista do Enterro, Kaffer, resume bem o que aconteceu com as bandas que tocaram antes. Registra-se que o evento, que mudou de lugar e horário várias vezes, quase foi cancelado por motivos de crise e acabou acontecendo na raça, de última hora, no Odisséia. Assim, cada uma das três bandas tocou por cerca de miúdos 15, 20 minutos. O Enterro se destaca pelas boas tramas instrumentais no black metal e consolida a formação de quarteto com Kaffer nos vocais e ordens para o público agitar que fazem efeito. As melhores músicas da noite são “Excommunicated”, com ênfase na transição entre trechos mais rápidos e mais cadenciados, e “This Land Shall Burn”, verdadeira locomotiva extrema com um “que” de cativante que faz o púbico erguer os punhos no final.

Trevas: a atmosfera pesada criada pelo grupo para a execução de uma obra-prima do black metal
Trevas: a atmosfera pesada criada pelo grupo para a execução de uma obra-prima do black metal


Antes, o encapuzado 7 Peles, cheio de mistério, mandou quatro pedradas. A banda, que toca oculta por capuzes e tem cada integrante com o mesmo nome – 7 Peles mesmo - no maior estilo Ghost, tem a identidade dos integrantes escondida a sete chaves. Foram três músicas próprias, com destaque para “Cayin” e seus solos próximos do melódico. A grande atração, contudo, foi a participação de Attila Csihar, ele mesmo, o frontman do Mayhem, de cara limpa, em um cover para “Beyond”, do Tormentor, sua banda de origem. Pena que boa parte do público não percebeu. Mais cedo, o bom Svatan de Curitiba, que usa toda a indumentária black metal e corpse paint, abriu os trabalhos para um público bem reduzido, que ainda se desvencilhava na entrada do Odisséia. Precisam votar ao Rio em melhores condições.

Set list completo Mayhem:
1- Funeral Fog
2- Freezing Moon
3- Cursed in Eternity
4- Pagan Fears
5- Life Eternal
6- From the Dark Past
7- Buried by Time and Dust
8- De Mysteriis Dom Sathanas
Bis
9- Deathcrush
10- MILAB
11- To Daimonion
12- Carnage
13- Pure Fucking Armageddon

O momento do show em que Attila Csihar se relaciona com o crânio macabro oriundo dele próprio
O momento do show em que Attila Csihar se relaciona com o crânio macabro oriundo dele próprio

Nota: Os integrantes do 7 Peles pediram que suas identidades permanecessem desconhecidas e por isso o texto original foi modificado para esta versão, em 10/6/18.


Fonte: Rock em Geral