terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Palestra radiante

No show do novo álbum, Foo Fighters converte músicas em esquetes que são aula e ao mesmo tempo espécie de parque temático do rock.

O vocalista, guitarrista e mestre de cerimônia do Foo Fighters, Dave Grohl, com a contumaz empolgação
O vocalista, guitarrista e mestre de cerimônia do Foo Fighters, Dave Grohl, com a contumaz empolgação

Não é só mais um show de rock para 30 mil pessoas em um estádio. Não é só uma banda consagrada apresentando as músicas do disco novo e repetindo seus grandes sucessos, que é o que o público realmente quer ouvir. Se fosse assim, já seria ótimo, mas a apresentação do Foo Fighters na noite deste domingo (25/2), no Maracanã, é muito, muito mais. Supera o protocolo adotado por dez entre dez artistas seja de que segmento for e aponta para o improviso, ainda que de certo modo planejado, e para o desenrolar de um repertório apresentado de forma única, desenvolvida ano após ano, turnê após turnê, meio intuitivamente, por uma sólida formação que já dura, sobre o palco, mais de 10 anos. Com o Foo Fighters, uma música tocada ao vivo jamais é igual a ela própria, tocada em outra 
turnê.

Para se ter uma ideia, na primeira meia hora só cabem quatro músicas, convertidas que são em versões alongadas instrumentalmente, com interstícios para a participação da cantoria do povaréu, ou com inserções nem sempre oportunas – vamos e venhamos – de um empolgadaço Dave Grohl. Ele é a figura central da apresentação e já sobe no palco com a pré-disposição de botar pra quebrar, correndo de lado a outro do palco e cantando/gritando furiosamente. Com mais dois guitarristas (Chris Shiflett e Pat Smear) e o tecladista Rami Jaffee, Grohl se dá ao luxo de tocar assim, assim, enquanto deixa emergir a veia daquele que entretém, para a satisfação de uns e o desalento de outros, como acontece com grandes ícones do rock em todas as épocas. Que rende momentos engraçados e outros enfadonhos, não tenha dúvida.

Dave Grohl, à direita, e o baterista Taylor Hawkins, no fundo, único que divide protagonismo com ele
Dave Grohl, à direita, e o baterista Taylor Hawkins, no fundo, único que divide protagonismo com ele

A abertura é com “Run”, o indigesto single do novo álbum, “Concrete and Gold”, prontamente reconhecida pelo público, que realça o groove e a espécie de “batida de maracatu” imposta pelo batera Taylor Hawkins, em contraposição ao vocal gritado de Grohl, tudo no mais sutil Soulfly/Sepultura style. O público se acaba é na sequência, que inclui – tudo estendido - clássicos como “The Pretender”, com um ótimo duelo de Dave Grohl com Shiflett, e “Learn to Fly”, quando o desafio do vocalista é com um poderoso Hawkins. Na maior parte do tempo, a banda, acrescida por três vocalistas de apoio anônimas em algumas músicas, parece brincar de estátua para que o chefão Grohl brilhe à frente, à exceção de Taylor Hawkins, o “primeiro flerte” do vocalista, segundo ele próprio em uma de suas tiradas.

E Hawkins brilha em várias partes do show. Na mais extravagante, canta a música “Sunday Rain”, outra das novas, depois de um rápido solo, enquanto a bateria é erguida a uns oito metros de altura por um mecanismo pantográfico no maior estilo Kiss. Mais adiante, na apresentação dos músicos, em esquete quase humorística, faz as vezes de Freddie Mercury no Rock In Rio de 1985, decalcando a inigualável performance de “Love Of My Life”, com o público, embora jovem, fazendo sua parte direitinho. “Esse é o verdadeiro Rock In Rio”, diz Grohl, sem citar que o Foo Fighters estreou no Brasil na edição de 2001 do festival. Hawkins ainda troca de lugar com Grohl, que assume as baquetas em uma versão certinha para “Under Pressure”, de Queen + David Bowie, cujo nome infelizmente não é citado.

O guitarrista Chris Shiflett, agora com o look e também tocando como guitar hero no Foo Fighters
O guitarrista Chris Shiflett, agora com o look e também tocando como guitar hero no Foo Fighters

O momento apresentações da banda, que tem sido aperfeiçoado turnê após turnê, ainda tem Chris Shiflett cantando na versão de “Under My Wheels”, de Alice Cooper, e os sem jeito Nate Mendel (baixo) e Pat Smear (guitarra) mandam, respectivamente, um trecho de “Another One Bites the Dust”, também do Queen, e Blitzkrieg Bop, do Ramones. A homenagem maior, contudo, vem no bis, quando a imagem de Malcolm Young, o guitarrista do AC/DC, morto no final do ano passado, aparece no telão, com a banda tocando “Let There Be Rock”, música tema do filme de mesmo nome, forte influência para Grohl decidir montar bandas. Com tanto plus a mais, o show bate as duas hora e meia de duração, em um roteiro que, se é verdadeiro espetáculo temático do rock de várias épocas, além do show do FF em si, pode não ser tão bem compreendido pelo público, como se fosse uma primeira aula de uma matéria pouco estudada nesses tempos tão estranhos.

Pode não parecer, mas o cenário é também incomum, a começar pelo telão central, no formato de losango retângulo que remete à capa de “Concrete and Gold”. A iluminação, em pequenos spots quadrados de led, aparece em barras partidas três a três que assumem configurações diversificadas a cada música, e o uso de raio laser, seja projetando o logo da banda sobre os equipamentos, ou no clássico “raio de sol”, é aplicado durante toda a noite. Parece que não, mas são detalhes que contribuem para a pecha de “única” para a apresentação. Do disco novo, entram ainda “Make It Right”, que passa batida no meio do show ante ao desinteresse total da plateia, insensibilizada com um riff dos bons, e a marcial “The Sky Is a Neighborhood”, cujo tom épico e o apoio das vocalistas têm bom eco na multidão.

O discreto baixista Nate Mendel, junto com Taylor Hawkins: cozinha certeira para a guitarra brilhar
O discreto baixista Nate Mendel, junto com Taylor Hawkins: cozinha certeira para a guitarra brilhar

Apesar da ausência de números como “I’ll Stick Around”, “Congregation” e “Arlandria”, na contabilidade final o repertório tem músicas dos nove álbuns de estúdio da banda, à exceção de “Sonic Highways” (2014), talvez por ser um projeto específico com a participação de vários músicos. 

Direcionada aos fãs old school (teve a tradicional pergunta de quem estava no show do FF pela primeira vez), “Breakout” recebe adesão imediata, assim como a boa “Hope”, do álbum “Wasting Light”, de 2011, talvez o último grande trabalho da banda. A primeira parte é encerrada em grande estilo com “Best of You”, e o bis, curto – mas eram duas hora e meia! – termina com a participação geral da plateia em “Everlong”. O fim de um show que, pelos contornos singulares, possivelmente será bem diferente no futuro. Quem viu, viu. Quem não viu, veja.

Set list completo:
1- Run
2- All My Life
3- Learn to Fly
4- The Pretender
5- The Sky Is a Neighborhood
6- Rope
7- Sunday Rain
8- My Hero
9- These Days
10- Walk
11- Breakout
12- Make It Right
13- Under My Wheels
14- Another One Bites the Dust/Blitzkrieg Bop/Love of My Life/Blitzkrieg Bop
15- Under Pressure
16- Monkey Wrench
17- Times Like These
18- Best of You
Bis
19- This Is a Call
20- Let There Be Rock
21- Everlong

O tecladista Rami Jaffee, Dave Grohl, Taylor Hawkins e Nate Mendel, com o losango retângulo atrás
O tecladista Rami Jaffee, Dave Grohl, Taylor Hawkins e Nate Mendel, com o losango retângulo atrás 


Fonte: Rock em Geral

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